Palavras Diversas

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A encruzilhada de Dilma e do PT (ou o esgotamento da política tradicional (?))

Crise política de representatividade requer decisões diferentes daquelas já tomadas em outros cenários

Crise política de representatividade requer decisões diferentes daquelas já tomadas em outros cenários

Entre as crises políticas que atacam países como a Espanha e a Grécia e, por lá, resultaram numa mudança de rumos na condução de cidades espanholas importantes e do governo grego, está a maior de todas as crises: a de representação política.

Os conservadores que ainda comandam a Espanha e que dirigiam a Grécia são alvos de uma insatisfação popular que, não necessariamente, escolheu a esquerda tradicional para representá-los, majoritariamente, na travessia de mudança.

No Brasil, o governo do PT, apesar dos atuais arranjos econômicos de viés de direita, é comandado pelos ditames de esquerda, em tese…

A oposição, apesar de suas maquiagens midiáticas de simpatia aos assuntos de interesse do povo, é de direita. Mas surfa na onda desta crise de representatividade política mundial. E o faz porque o PT sofre o desgaste natural de 13 anos de poder ininterrupto, aprofundado por uma grave crise econômica mundial. Logo a administração Dilma vira vidraça de todo tipo de insatisfeitos: os da esquerda, os da direita, os da classe média, os dos ricos e até os dos pobres. Cada qual com suas demandas, mas não competindo, ainda, por mais espaços de poder, abertamente.

O discurso tradicional da política não parece mais convencer, não mais alcança seus resultados. E isto atinge tanto a esquerda, quanto a direita. Se na Espanha e na Grécia são os conservadores as vítimas da insatisfação popular, no Brasil é a esquerda quem apanha, pelo simples fato de estar governando.

A crise é política e atinge todos os níveis de se fazê-la: nos movimentos estudantis, sindicais e partidários tradicionais. Os insatisfeitos rejeitam acordos futuros, baseados em promessas recorrentes, também não aceitam os descaminhos das coalizões governamentais, que se anulam e se prendem no mesmo lugar, porque são construídas baseadas no fisiologismo e não nos programas políticos vencedores.

Dilma colhe um vendaval porque ao prometer um “governo novo, (de) ideias novas”, teve que recuar e se alinhar com velhos personagens e com ideias ainda mais velhas, para construir uma governabilidade que se revela uma quimera. De certo, não estava na cabeça de seus eleitores e apoiadores ter que suportar um ajuste econômico recessivo, que poderia muito bem ser lançado pelos derrotados nas urnas, sem causar espanto aos eleitores da oposição. Do mesmo modo, há uma forte negativa da sociedade à maneira como as alianças políticas continuam a ser fechadas. Por exemplo, não pode ser o PMDB, que não consegue entregar fidelidade às proposições do governo do PT, um partido que ocupe tamanho espaço no ministério e no Congresso, presidindo a Câmara Federal, o Senado e comandando seis ministérios no governo.

A direita que trama derrubar o governo, em meio a imensa onda de insatisfação, também não teria uma “lua de mel” duradoura com a população e logo seria alvo das ruas, porque seus interesses não são os mesmos daqueles que reprovam o atual governo. Em comum apenas a vontade de tirar Dilma e o PT da presidência, mas em um segundo momento, voltariam as disputas por poder e seriam, inevitavelmente, derrotados.

Por que?

Por acreditar que a questão política não seria mexida pelas lideranças da oposição, que aspiram a tomada do poder neste momento e pelo histórico descomprometimento destes com as aspirações da maioria, desta maneira, permaneceria capenga a representatividade política do povo. A contemplação de agendas mais urgentes seria postergada, na vã tentativa desta agenda cair no esquecimento…

A urgência reside na necessidade de uma radicalização da democracia, em uma reforma política cidadã e mais democrática.

As estruturas de poder mostram-se pouco renovadas, e isto serve para diretórios acadêmicos, sindicatos, partidos políticos, Congresso, assembleias estaduais e câmaras municipais.  O povo, em momentos de crises econômicas ou sociais, tende a não confiar em organismos que pouco se renovam, e que são ineficazes na tarefa de resolver problemas que insistem em permanecer no cenário político.  O pouco, ou quase nenhum, espaço de participação popular para definir os rumos de uma administração ou poder participar do processo de construção de pautas, retira e muito a legitimidade de dirigentes políticos.

O problema não é simples, não se resolve de um momento para outro, mas é fato que há um esgotamento do fazer político vigente, que se não atacado, poderá gerar um quadro por demais fragmentado e mais complexo de lidar com tantas questões que possam surgir desta fragmentação iminente.

Aqui não se trata de dizer o que precisa ou não ser feito, em termos de ação política, mas afirmar que a crise política atinge a administração petista, assim como atingiu os espanhóis e gregos. Um cenário de crise econômica ao fundo, descrédito da classe política e dos quadros dirigentes. Apesar de reconhecer que o PT não cometeu os mesmos pecados que os conservadores gregos e espanhóis.

Por aqui, os conservadores manejam para serem eles os “salvadores da pátria”, pela incapacidade da esquerda, capilar, orgânica e viável para suceder o PT, organizar-se e unir-se na tarefa de construir um “governo novo, (com) ideias novas”. Aí a direita deita e rola no discurso falso moralista-cristão-conservador em um ambiente social despolitizado e guiado pelo ódio, porque não tem oponentes.

Quanto ao PT ser capaz de renovar-se, aos seus discursos e fazeres, para enfrentar esta grave crise, isto é uma grande interrogação. Fernando Haddad, prefeito de São Paulo, constrói uma administração abrigando setores da sociedade, até pouco tempo, marginalizados e pouco ouvidos, politizando questões de grande interesse público.

É inspirador, mas o seu partido parece não lhe dar espaços para servir de exemplo de radicalização democrática para o país.

O certo é que esta capacidade de renovação e enfrentamento político, por parte do governo Dilma não é uma interrogação, mas sim uma afirmação, até o momento, negativa.

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Publicado às 22/06/2015 por em dilma rousseff, politica e marcado , , , , , .

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