Palavras Diversas

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Partidarismo da mídia: “Cadê o outro lado?”

O ano de 2014 completou 50 anos do golpe militar que mutilou a democracia e mudou a história do Brasil.

Fazendo uma retrospectiva de como este triste episódio foi tratado na mídia hegemônica, podemos afirmar que, em geral, passou sem uma análise profunda e honesta.

Em boa parte, devido à questões políticas muito presentes, a narrativa da mídia foi superficial, tendenciosa e sem tocar em temas importantes, tais como: quem financiou o golpe ou a quem interessava uma ditadura.

É ainda muito comum encontrar textos na grande imprensa que atribuam o golpe a decorrência de uma crise descontrolada, econômica, política e socialmente, mal gerida por um governo fraco [Jango].

Além disso, a versão que se tentam cristalizar de que João Goulart não era popular, é outra tentativa de impor uma visão reacionária do golpe e das “necessidades vitais” para o bem da nação de se depor um governante.

Não é muito diferente do que tentam fazer os grandes grupos de mídia nos últimos anos.

A batalha pelo poder e a tentativa de pautar a opinião pública com o velho ideário liberal de direita contra um partido político, o PT, e seus governos e governantes, Lula e Dilma, não é uma novidade estratégica.

O bombardeio de manchetes negativas contra uma empresa nacional, no caso a Petrobrás, também não surpreende a mais ninguém, tamanha a falta de criatividade na operação levada a cabo a partir das ilhas de edições baseadas em São Paulo e Rio de Janeiro.

É mais do mesmo.

Anterior a 1964, vem de longos tempos, já havia implodido um governo eleito democraticamente, o de Getúlio Vargas em 1954.

A matéria que acompanha esse texto é do competente jornalista, Luiz Carlos Azenha, um dissidente do jornalismo partidário de direita da Globo, e foi veiculado no Jornal da Record.

Trabalho jornalístico como este não seria exibido na Globo, por exemplo, tamanho o compromisso da emissora carioca com a ditadura militar.

O professor da UFABC, Igor Fuser, protagonizou um dos momentos mais marcantes deste ano. E este evento, em muito tem a ver com aquilo que é preciso reforçar e enfrentar: o partidarismo político da grande mídia e seus ataques a verdade dos fatos.

Em um daqueles programas de debate da Globo News, Fuser , ao falar sobre a situação da Venezuela, foi enfático ao acusar a Globo de manipular os fatos. Isto é algo velho, a novidade foi um convidado se voltar contra o anfitrião e acusá-lo de atentar contra aquilo que tanto dizem respeitar: a verdade.

Fuser cravou:

“Eu sou leitor assíduo de jornais, de televisão, sou jornalista de formação, eu nunca vi na Globo, nem nos jornais brasileiros uma única notícia positiva sobre a Venezuela. Uma única. A gente pode ter a opinião que a gente quiser sobre a Venezuela, a Venezuela é um pais muito complicado, agora será que nesses 15 anos de chavismo não aconteceu nada de positivo? Eu nunca vi, desafio a me mostrar, uma notícia positiva sobre a Venezuela na Globo. Estou falando isso porque estou na Globo, mas eu diria o mesmo no Estadão, na Folha de São Paulo, em outra emissora de televisão, não é possivel que só mostrem o que é ruim ou supostamente ruim da Venezuela. Quer dizer, cadê o outro lado? Será que os venezuelanos que votaram no Chávez, que votaram no Maduro, são tão burros, que o governo só faz coisa errada?”

O final do questionamento de Fuser cabe, e muito bem, a cobertura jornalística feita sobre os governos de Lula e Dilma, ou sobre o PT.

Cadê o outro lado?

A imprensa finge que trata de informação jornalística, mas não consegue esconder seus artifícios políticos em cada linha escrita por seus porta vozes mais [bem ou mal] afamados, na edição de imagens que ilustram uma matéria ou nas caras e bocas de seus âncoras de telejornais.

Logo, é preciso reafirmar com firmeza, nunca, jamais a grande imprensa se daria ao trabalho de fazer análises isentas de momentos de nossa história com honestidade e fidelidade a verdade dos fatos, como do período da ditadura.

Matérias como a de Azenha, veiculada pela Record ou o enfrentamento de Fuser, ao vivo, na Globo News, se constituem, infelizmente, exceções a regra.

Perdem a sociedade e a democracia.

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