Palavras Diversas

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A farsa de 1973: O “gol” de Pinochet no Estádio Nacional

O canal ESPN tem apresentado uma série de filmes de 30 minutos de duração que envolvem o tema futebol, mas sob diferentes conjunturas históricas.

Um deles, “A Oposição” narra a farsa do jogo de uma só equipe e do gol fantasma que classificou o Chile para a copa do mundo de 1973.

O Chile enfrentaria a URSS no Estádio Nacional em novembro daquele ano, mas os soviéticos se recusaram a jogar em um estádio que servia de campo de concentração de presos políticos da ditadura Pinochet, que em setembro havia derrubado o presidente eleito democraticamente em 1970, Salvador Allende.

Entre setembro e novembro mais de 40 mil pessoas haviam sido levadas ao Estádio Nacional pelas forças militares da ditadura e sido torturadas e mortas.

A URSS solicitou a Fifa que o jogo fosse remarcado para um país neutro, Argentina ou peru.

Com a negativa da entidade maior do futebol, foi armada uma farsa histórica, com a participação do governo e da federação chilena, com a complacência da Fifa.

Autoridades “inspecionaram” o local 48 horas antes do jogo para “provar” que ali não havia presos políticos.

No filme um dos presos afirma que todos foram levados para um local escondido no estádio para que a trapaça pudesse ser completada.

Não é de hoje que o futebol flerta com o autoritarismo ou que a Fifa seja exemplo de sujeira e de falta de ética.

O Chile entrou em campo, uniformizado, com torcida e arbitragem, deu a saída de bola e com cinco ou seis toques finalizou para um gol vazio. A vaga foi conquistada, mas durante a copa de 1974 os chilenos foram eliminados na primeira fase sem ter vencido nenhuma partida.

Confira texto publicado na revista Rolling Stone sobre este jogo que é considerado uma das mais vergonhosos episódios do futebol, chileno e da Fifa.

O jogo que nunca existiu

Em 1973, o golpe militar que empossou a ditadura de Augusto Pinochet rompeu as relações entre o Chile e a União Soviética. O fato mudou os rumos da Copa de 1974 e transformou o Estádio Nacional de Santiago em um vergonhoso túmulo da história moderna

A comunidade esportiva internacional também não se envolveu. Apenas Bulgária, Polônia e Alemanha Oriental – todas alinhadas à URSS – ameaçaram boicotar a Copa do ano seguinte, o que também acabaram não fazendo. Por outro lado, a Federação Chilena solicitou uma indenização econômica se a partida fosse suspensa e ainda ofereceu disputar o jogo decisive no Estádio Sausalito, em Viña del Mar. Mas, antes de alguém aceitar a proposta, o próprio Pinochet mandou desautorizar a mensagem. Obstinado, ele fazia questão que a partida fosse no Estádio Nacional “para mostrar ao mundo que não temos nada a esconder… No Estádio Nacional ou nada”. A URSS, por sua vez, declarou que aceitaria enfrentar o Chile se o jogo se realizasse em um país neutro. Sem vacilar, a Fifa se manteve firme em sua determinação.

Aos poucos, o governo chileno esvaziou o estádio, transferindo os prisioneiros para outros lugares de reclusão, especialmente no campo inaugurado na abandonada Salitrera Chacabuco, a 100 km de Antofagasta. Por fim, 48 horas antes do jogo, a arena do Estádio Nacional, onde o Brasil havia se consagrado bicampeão mundial em 1962, estava pronta para a maior farsa da história das Eliminatórias das Copas.

Dezoito mil ingressos foram vendidos. O show daquela jornada, batizado mais tarde pela imprensa chilena como “o gol mais triste do Chile”, começou com o som de bandas militares para entreter os pagantes – porque jogo não haveria. A URSS não havia desembarcado no país. Avisados, os jogadores chilenos puderam relaxar. Caszely relatou que, durante a espera no hotel antes da “partida”, muitas pessoas “se aproximavam, nos pedindo para que olhássemos no estádio se o filho, a esposa, o marido, o pai e o irmão não estavam lá… Foi muito triste”.

Mario Silberman, então vice-embaixador chileno em Moscou, relatou anos depois, após a dissolução da União Soviética: “Sempre soube que essa revanche não aconteceria, pois, dias após o primeiro jogo, a União Soviética rompeu relações diplomáticas com o Chile e a embaixada foi desconectada. No mês seguinte, o consulado do Peru assumiu os negócios chilenos na URSS. Foram dias difíceis, tanto que não consegui voltar para casa por mais de um ano”.

Na tarde de 21 de novembro de 1973, a esquadra chilena entrou em campo, pronta para garantir a vaga na Copa da Alemanha: não haveria time adversário. “Era assustador pisar naquele gramado, sabendo o que havia se sucedido ali dois, três dias antes, inclusive com pessoas conhecidas de muitos de nós”, disse o jogador Véliz. O juiz (chileno) Rafael Ormazábal apitou o início do jogo: Valdes saiu com Caszely, que tocou para Véliz, que passou para Páez. Este devolve para Caszely e, conforme combinado no vestiário, o camisa 9 entregou a bola ao capitão Francisco “Chamaco” Valdes, que encarou o gol vazio e converteu. Gol de Pinochet. Como não havia nenhum soviético em campo para reiniciar a partida, o árbitro decretou o fim do jogo, com vitória para o Chile por 1 x 0.

Anos mais tarde, Oleg Blokhin desmitificou “a rara fidalguia da liderança soviética” e confessou que a decisão de não se apresentar foi dos jogadores, por questões de segurança, e que o governo soviético simplesmente concordou com eles: “Não sabíamos o que poderia acontecer com a gente; escutávamos que o Pinochet matava a todos os adversários ideológicos e nós éramos soviéticos…”

Dois meses após a encenação, a Fifa validou a vitória do Chile, mas modificou o placar final: 2 x 0. Foi assim que o Chile se classificou e a União Soviética ficou de fora do Mundial de 1974. Talvez para comemorar a absurda vitória (e justificar o ingresso pago por aquelas 18 mil pessoas), a ditadura organizou para o mesmo dia uma partida contra o Santos F.C., cujo time se encontrava no Chile (mas sem Pelé) e cobrava cachê de US$ 30 mil. O clube brasileiro venceu por 5 x 0, deixando claro que o Chile só tinha condições de vencer se não tivesse um rival na frente. De fato, na Copa de 1974, o país não ganhou nenhum jogo: perdeu um e empatou dois. No 0 x 0 contra a Austrália, inclusive, um grupo de chilenos invadiu o campo para protestar contra Pinochet. E os protestos persistem em todos os 11 de setembro seguintes, quando o povo chileno se divide entre os que choram seus desaparecidos e os que ainda defendem a memória do velho ditador.

EDGARDO MARTOLIO/ Rolling Stone

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