Palavras Diversas

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A bela homenagem de Lélia Almeida às mães

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DIA DAS MÃES

Como homenagem ao dia das mães escolhi a voz de diferentes autores para um diálogo sobre a função materna ou o sentimento da maternidade. A voz desses autores ressoa próxima na minha memória: leituras antigas, imagens soltas, vozes, ecos, silenciosas conversas com os livros.

Sobre os autores e textos citados, uma breve informação. As referências a Érico Veríssimo são através de O Continente II, editado pela Globo. O texto de Elisabeth Badinter, O mito do amor materno. Um amor conquistado, editado pela Nova Fronteira é leitura obrigatória para a desmistificação da maternidade como uma natural vocação feminina. O livro de Valesca de Assis, o primeiro texto de ficção sobre a colonização alemã em Santa Cruz do Sul, A valsa da Medusa foi editado pela Movimento. Simone de Beauvoir é citado atavés do livro Simone de Beauvoir hoje, entrevista histórica com Simone de Beauvoir com Alice Schwarzer, editado pela Rocco. Clarice Lispector aparece citada em seu texto de estréia na literatura brasileira, o sempre fantástico e emocionante Perto do coração selvagem, editado pelo Círculo do Livro.

Fazer uma seleção é sempre procedimento injusto e incompleto. Tantas vozes, autores e nós mesmos poderíamos fazer as reflexões mais profundas e poéticas sobre o tema. A escolha foi breve, rápida. Trechos de textos, pinceladas sobre este assunto tão controverso, tão presente, sempre emocionante. Que falem os autores, então. Eu, de minha parte, a partir do valioso apoio e colaboração do Grupo Mulher e Cidadania (UNISC e Movimento Intersindical), quero desejar a todas as mulheres que cuidam sem cessar, que embalam o mundo das mais diferentes maneiras, o meu FELIZ DIA DAS MÃES!

1) “A memória então lhe voltou. Era Bolívar Cambará, estava em sua casa, em seu quarto e fazia algum tempo que se deitara para dormir. Mas o medo ainda lhe comprime o peito, e era mais terrível ainda porque ele não lhe conhecia a causa. Alguma coisa o fizera soltar um grito e acordar assustado, alguma coisa que decerto estava agora escondida num dos cantos do quarto escuro… Por isso a voz de sua mãe era uma esperança de socorro. Ele queria luz: ele queria a mãe.

Uma porta se abriu e Bibiana apareceu com uma vela acesa na mão. A chama alumiava-lhe o rosto. E por um segundo Bolívar de novo voltou à infância. Pareceu-lhe até sentir o cheiro de óleo da lamparina. O rosto da mãe lhe deu a sensação de segurança de que ele precisava. Seu primeiro ímpeto foi o de caminhar para ela, buscando a proteção de seus seios, de seus braços, de seu ventre. Para ele mãe e luz eram duas coisas inseparáveis. Quando menino, muitas vezes acordava assustado no meio da noite, começava a chorar e só se acalmava quando a mãe acendia a lamparina e o tomava nos braços para o embalar”.

(VERÍSSIMO, Érico. O continente II).

2) “Eu me sinto segurando uma criança, pensou Joana. Dorme, meu filho, dorme, eu lhe digo. O filho é morno e eu estou triste. Mas é a tristeza da felicidade, esse apaziguamento e suficiência que deixam o rosto plácido, longínquo. E quando meu filho me toca não me rouba pensamento como os outros. Mas depois, quando eu lhe der leite com estes seios frágeis e bonitos, meu filho crescerá de minha força e me esmagará com sua vida. Ele se distanciará de mim e eu serei a velha mãe inútil. Não me sentirei burlada. Mas vencida apenas e direi: eu nada sei, posso parir um filho e nada sei. Deus receberá minha humildade e dirá: pude parir um mundo e nada sei. Estarei mais perto d’Ele e da mulher da voz. Meu filho se moverá nos meus braços e eu me direi: Joana, Joana, isso é bom. Não pronunciarei outra palavra porque a verdade será o que agradar aos meus braços”.

(LISPECTOR, Clarice. Perto do coração selvagem).

3) “Sim, o vulto que se debruçava sobre ele lembrava em muito sua mãe e Tristan sentiu-se definitivamente ligado ao amparo daquela mulher, aos traços difusos, que iam se tornando fortes: a testa pequena, os olhos grandes e atentos, a boca determinada, o cabelo muito claro e em leve desalinho. Apenas um mínimo tremor na pálpebra direita sugeria preocupação. As palavras que dizia eram tranqüilizadoras. Eram palavras de mãe.

Doces perguntas, femininas perguntas: quem era? de onde vinha? por que tão imprudentemente se tinha arriscado, descalço, naquelas matas de bichos peçonhentos? sentia-se melhor? queria algo? tinha frio? Nada, nada. Tristan não queria que o menor movimento afastasse aquele colo quente, aquele hálito de pêssego, aquela face ameigada pela ternura. Só queria, se pudesse, voltar para dentro de sua mãe, um pouquinho só, e sentir o que todas as crianças sentiram, menos ele, tão órfão, tão só”.

(ASSIS, Valesca de. A valsa da Medusa).

4)”É à mulher primitiva que devemos o fato de nós sermos destros, por exemplo. Como explica Nigel Calder, “a preferência por uma das mãos, a típica preferência destra do humano moderno, é um fenômeno feminino”. Desde tempos imemoriais que a mulher acostumou-se a carregar seu bebê no lado esquerdo de seu corpo, onde pode ser reconfortado pelo bater do seu coração; isso libera sua mão direita para agir, e teria sido o incentivo no sentido da evolução da predominância dos destros em seres humanos mais tardios. Calder mostra que o apoio para a “feminilidade na preferência da mão” aparece no fato de até hoje as meninas desenvolverem sua preferência de mão, como na fala, muito mais rápida e decididamente do que os meninos”.

(MILES, Rosalind. A história do mundo pelas mulheres).

5)”- A. S. – A senhora foi freqüentemente atacada por sua posição em relação à maternidade, e isso por mulheres. Elas a acusam de recusar a maternidade.

– S. B. – Ah, não! Eu não a recuso! Acho apenas que hoje é uma armadilha infantil para uma mulher. Por isso, aconselharia uma mulher a não se tornar mãe. Mas não faço um julgamento de valor. O que se deve condenar não são as mães, mas a ideologia que incita todas as mulheres a se tornarem mães e em que condições devem sê-lo.

Junta-se a isso uma mistificação perigosa da relação mãe-filho. Acho que se as pessoas dão tanta importância à família e aos filhos é porque, no todo, vivem numa grande solidão: não têm amigos, amor, ternura, ninguém. Estão sós. Portanto, fazem filhos para terem alguém. Dá-se o mesmo com o filho. Ele se torna um substitutivo. Em todo caso, quando cresce, livra-se. Não constitui absolutamente uma garantia contra a solidão”.

(SCHWARZER, Alice. Simone de Beauvoir hoje).

6)”O amor materno é apenas um sentimento humano. E como todo sentimento, é incerto, frágil e imperfeito. Contrariamente aos preconceitos, ele talvez esteja profundamente inscrito na natureza feminina. Observando-se a evolução das atitudes maternas, constata-se que o interesse e a dedicação à criança se manifestam ou não se manifestam. A ternura existe ou não existe. As diferentes maneiras de expressar o amor materno vão do mais ou menos, passando pelo nada, ou quase nada.

Convictos de que a boa mãe não é uma realidade entre outras, partimos à procura das diferentes faces da maternidade, mesmo as que hoje são rejeitadas, provavelmente porque nos amedrontam”.

(BADINTER, Elisabeth. Um amor conquistado. O mito do amor materno).

Lélia Almeida / Mujer de Palabras

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Publicado às 11/05/2014 por em poesia e marcado , , , , .

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