Palavras Diversas

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Vitória da FMLN consolida esquerda salvadorenha[?]

Ronald Reagan aradicalizou nos anos 1980 a política intervencionista na América Central. A Nicarágua sabdinista foi alvo de atques terrosristas dos "Contra", abrigados em El Salvador

Ronald Reagan radicalizou, nos anos 1980, a política intervencionista dos EUA na América Central. A Nicarágua sandinista foi alvo de ataques terroristas dos “Contra”, abrigados pela ditadura de El Salvador. Administração de Obama, do Partido Democrata, em nada se difere dos Republicanos neste aspecto

El Salvador: o novo desafio do pequeno polegar

América Central ou Central América. Kansas ou Nicarágua. Assim viveu sempre a subregião, reino dos ditadores e das invasões norte-americanas.

 A América Central é um subcontinente imprensado entre a América do Norte e a América do Sul, buscando espaço para expressar seu perfil próprio e seus interesses específicos.

Para exemplificar essas dificuldades, conto duas histórias que me contou Eduardo Galeano, o melhor contador de histórias do mundo.

Ele estava passando uns tempos na Califórnia e saía pelas manhãs a caminhar, coincidindo com um norteamericano que, segundo ele, tinha cara de Premio Nobel de Física. Nunca falavam nada de essencial, até que um dia a mulher do tipo pergunta ao Galeano de onde ele era.

Com o nível de desinformação existentes – para nao falar ignorância – Galeano achou que era demasiado dizer que era do Uruguai. Aproveitou que era o auge dos conflitos entre o governo Reagan e o governo sandinista e, para facilitar as coisas, disse:

– Eu sou da Nicarágua.

E, para ajudar, acrescentou:

– In Central America

Rostos de espanto nos dois gringos, como se o Galeano tivesse dito que era da Bessarábia. Até que a mulher do suposto Nobel de Física se interrogou:

– Mas Central América é o Kansas.

Central América para eles é o centro da América, que obviamente são eles.

Ronald Reagan não ajudava muito. Perguntado uma vez onde ficava essa tal da Nicarágua, que era um perigo para a segurança dos Estados Unidos, ele passou a indicação, rapidamente:

– Você vai até o Texas e vira à esquerda.

Galeano assistiu, assombrado, o famoso pronunciamento do Reagan na TV, em que ele denunciava que a Nicarágua colocava em risco a segurança dos Estados Unidos. Reagan dizia que a Nicarágua era a “fronteira sul dos EUA”. eliminando o México, a Guatemala, El Salvador e Honduras, enquanto num mapa da América  Central e dos EUA atrás dele, subia uma maré vermelha da Nicarágua na direção dos EUA.

Galeano me comentava, assombrado:

– O país elevado a risco para os EUA, para que se tenha um critério de comparação tecnológico apenas, tinha apenas duas escadas rolantes e uma delas não funcionava.

América Central ou Central América. Kansas ou Nicarágua. Assim viveu sempre a subregião, reino dos ditadores e das invasões norte-americanas. Bem que tentaram se unir num único pais, experiência que durou pouco, sob a pressão das potências colonizadoras, que os preferem divididos e, se possível, brigados entre si, a ponto que em 1969 houve a Guerra do Futebol – porque desatada a partir de uma partida entre as seleções dos dois países, que durou quatro dias, mas que expressava conflitos entre imigrantes hondurenhos e a população salvadorenha.

Somente a Revolução Sandinista conseguiu projetar a região internacionalmente. Uma vitória popular que derrubou a dinastia dos Somoza, imposta pelos EUA desde os anos 1930. Mas apesar do apoio interno e internacional amplo que tinha, o movimento teve que se enfrentar rapidamente com uma reação violenta dos EUA, porque coincidia aquele momento – 1979 – com o fracasso do governo Carter –  e a vitória de Ronald Reagan, que comandou o processo terrorista que abalou profundamente o governo sandinista, levado à asfixia e à derrota.

Mas paralelamente haviam se desenvolvido movimentos guerrilheiros na Guatemala – que retomava movimentos dos anos 1960 – e em El Salvador. O conjunto da região entrava em ebulição.

Porém, a contraofensiva dos EUA com o governo Reagan teve efeitos devastadores sobre a já enfraquecida URSS, desembocando no surpreendente desenlace da guerra fria, não apenas com  a vitória de um dos campos, mas com a simples desaparição do outro campo.

Os movimentos guerrilheiros dos dois países centroamericanos se deram conta de que, apesar da força acumulada – especialmente em El Salvador –a vitória militar era impossível, pela presença militar direta dos EUA. Reciclaram então sua luta mediante acordos de paz para a luta política institucional.

Esse processo não deu certo na Guatemala, coma divisão das forças guerrilheiras e dos movimentos indígenas, mas teve sucesso em El Salvador, onde a Frente Farabundo Marti de Libertação Nacional, transformada em partido politico, logo elegeu importante bancada parlamentar e, em seguida, conquistou a prefeitura de San Salvador.

Mas o país teve três mandatos seguidos da Arena, o partido que representa diretamente a continuidade da direita, a mesma que esteve na ditadura militar durante o processo de enfrentamento militar no país. Uma direita feroz, radical, violenta, que só foi derrotada ha cinco anos, com a eleição de Mauricio Funes para a presidência de El Salvador.

Depois de tentar eleger seus próprios dirigentes, a FMLN escolheu como candidato a um prestigioso jornalista, que não era diretamente das suas filas, mas com trajetória claramente de esquerda. O vice presidente – e também Ministro de Educação – de Funes era Salvador Sanches Ceren, antigo comandante guerrilheiro da FMLN.

Até que nestas eleições, em um pleito muito renhido, Sanchez Ceren foi eleito presidente da república, com a FMLN cumprindo o ciclo de movimento guerrilheiro a força politica dirigente de El Salvador, apesar das dificuldades que uma vitória tão apertada – por pouco mais de 6 mil votos e questionada pela  direita – traz para o pais. Esse o novo desafio do menor país do continente – conhecido por isso como o Pequeno Polegar – tem pela frente.

Emir Sader / Carta Maior

 

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