Palavras Diversas

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Registros de La Paz: a capital multicultural da Bolívia

Bloqueio de estrada feito pela COB que presenciei nos arredores de El Alto

Em viagem de férias a Bolívia e Peru, passei dois dias em La Paz, para me adaptar a altitude e, também, claro, ver de perto a nova Bolívia de Evo. O que pude perceber é que a região metropolitana da capital boliviana passa por obras, parece reconstruir-se.  São muitas, em uma região de pobreza e exclusão históricas.  Na Bolívia a riqueza concentra-se em Santa Cruz de La Sierra, uma espécie de São Paulo conservadora.

Nas minhas voltas pelas ladeiras íngremes e com ar rarefeito de La Paz, encontro pobreza e canteiros de obras.  Na região de El Alto, a caminho de Tiwanaku, vi, em fase final, o prédio da Universidade Pública de El Alto, uma promessa de campanha de Evo, prestes a ser inaugurada.  Pode parecer pouco, muito pouco, mas para um país sempre governado a partir de Miami, por uma elite que sempre teve asco dos indígenas, pessoas com a cara de Evo que dominam a paisagem das regiões mais populosas do país, é muita coisa, é algo histórico!

É verdade que o país ainda precisa, e muito, avançar econômica e socialmente, muito mesmo.  Há muita coisa a ser feita, muitas oportunidades a serem criadas.  Na Bolívia que testemunhei, nas ruas e nos passeios ao redor da capital, o boliviano parece lutar para superar todo o atraso de sucessivos governos, que por séculos, usurparam as riquezas do país e, recentemente, as depositaram no exterior, onde poderiam usufruir de luxo circundados de “pessoas civilizadas”.  É uma triste história, ora combatida pelo primeiro governo indígena da Bolívia, que apesar de todo avanço conquistado até então, ainda precisará de muito mais ações políticas para atenuar o cenário de pobreza que assola a região populosa de La Paz.  Serão necessários tantos outros governo como o de Evo, para impedir o regresso dos agentes da exclusão social, daqueles que geriam um Estado para apenas 25% da população, que ignoravam a miséria das “cholitas” .

No meu último dia na capital boliviana fui impedido de pegar um vôo para Cuzco, minha próxima parada, por conta de uma manifestação da Central Obrera Boliviana (COB), em greve geral por reajuste de 15% de salários.  Os trabalhadores fecharam todos os acessos ao aeroporto de El Alto.  O motorista do táxi ainda tentou outras alternativas, mas todas estavam fechadas.  Fiquei frustrado por não conseguir chegar ao aeroporto, mas muito impressionado com a determinação e organização dos manifestantes.  Fecharam todas as principais estradas do país.

Na verdade fiquei mais chateado com a companhia aérea que não devolveu o dinheiro e me ofereceu crédito de validade de um ano para viajar.   No final da tarde consegui um ônibus, 12 horas de estrada até Cuzco.  Não me arrependi de tentar esta opção, mas fiquei com a enorme sensação de que na Bolívia, o que me parece algo histórico, as forças que podem ser aliadas, voltam-se contra seus iguais para conseguir o que pretendem, mesmo que para isso provoquem um estado político de choque desmedido e, no fim das contas, regridam a um estágio inferior que se encontravam antes.
Porque digo isso?  Os movimentos sociais são os maiores aliados de Evo na luta gigantesca para reverter ou atenuar todo o quadro de atraso.  As constantes manifestações, escalonadas de mineiros, maestros e profissionais da saúde, enfraquecem a imagem do governo, o tornam ainda mais frágil para seus adversários de Santa Cruz de La Sierra.  Não receito a inércia dos movimentos sociais, muito pelo contrário, mas a compreensão de que somente avançarão se negociarem respeitando os contextos apresentados, frente a frente com um governo que mais têm em comum e disposição para negociar de que seus antecessores ou os abutres a espera de sua queda.
Ao final de uma semana, soube, de Lima,  que as manifestações cessaram e a COB aceitou um reajuste de 11% em seus salários.

O governador coberto de heroísmo pela TV boliviana
Um fato grave que ocorreu no dia do corre-corre para chegar a Cuzco, foi o tiroteio em que se envolveu o governador de Santa Cruz de La Sierra, Rubén Costas, que segundo o noticiário havia sido alvejado, de raspão na orelha, ao tentar socorrer uma moça que estaria sendo assaltada perto de sua luxuosa caminhonete importada.  Achei aquilo tudo muito estranho, me parecia algo pouco crível. O noticiário era confuso, alguns falavam que “o estado do governador era estável, mas ainda grave”, outros diziam “que não corria risco de morte”.  Logo me lembrei do caso da bolinha de papel no Serra, nas eleições de 2010.  Claro, uma bala é algo muito mais sério, mas a motivação parecia pouco provável, a cobertura dava-lhe ares de heroísmo.  Para quem não conhece, Santa Cruz de La Sierra é a região mais rica da Bolívia e, a despeito da pobreza vista na região de La Paz, é também a região com maior desigualdade do país: pouquíssimos ricos e muita gente pobre.
Ao partir para a rodoviária e me despedir das simpáticas atendentes do hotel, comentei o caso de Costas a elas, logo respondido por elas com um sonoro “que pena que não morreu…”

Em 2009, em Santa Cruz de La Sierra, foram encontrados extremistas que tramavam a morte de Evo, naquela ocasião os governos de Hungria, Irlanda e Croácia, além de Rubén Costas, condenaram as mortes dos extremistas e tentaram imputar a Evo a culpa por um suposto massacre.

 

*publicado originalmente em 27 de abril de 2011, após inesquecível viagem aos altiplanos boliviano e peruano

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2 comentários em “Registros de La Paz: a capital multicultural da Bolívia

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