Palavras Diversas

Desde 2010 observando política, mídia e sociedade

O cavalo selado que a oposição aguarda

Expoentes do modo petista de governar, Olívio primeiro e Lula, depois, levaram o PT a bem sucedidas administrações.  A derrota do petismo na capital gaúcha em 2004 ainda não foi superada

Durante muitos anos a opinião pública foi “informada” pela imprensa que aqueles que se apresentavam como opositores não estavam aptos para propor nada de novo, apenas eram contra “tudo aquilo que estava posto”.

O PT demorou cerca de 20 anos para aprender a lidar, inteligentemente, com esta estratégia político-midiática.

FHC venceu duas eleições montado em um plano econômico e na ajuda indispensável da imprensa conservadora brasileira, que fazia a entrega domiciliar de um produto bruto e acabado: a oposição brasileira de esquerda, como ente político raivoso e “sem proposições” ao conjunto majoritário da sociedade brasileira.

O eleitor era instado a sentir medo de Lula ou de Brizola chegar ao comando do país.

A ideia predominante da situação e da imprensa era apresentá-los como os “do contra” e capitalizar a acomodação da população com o contexto econômico e social vigentes, mesmo que negativos, para dizer, nas entrelinhas dos discursos políticos e manchetes amedrontadoras, que se estava “ruim com eles, pior sem eles”, os governantes que dominavam o poder central até então.

A ascensão do Petismo em Porto Alegre

A vitória do PT em Porto Alegre com Olívio Dutra em 1988 foi capaz de garantir quatro administrações petistas, dentre elas duas de Tarso Genro, que mudaram a capital, o modo de fazer política no Rio Grande do Sul e trouxeram a capital dos gaúchos para um patamar elevado de políticas públicas, além de lançarem estes políticos à esfera nacional.

As administrações petistas de Porto Alegre transformaram-se na “etiqueta vitoriosa” do “modo petista de governar”.  O PT venceu a desconfiança e apresentou proposições políticas reais, sentidas pelo conjunto majoritário da população, fez funcionar, entre tantos outros mecanismos de participação popular, o orçamento participativo e recebeu o voto de confiança por 16 anos.

Mas nas disputas nacionais, o PT e a esquerda, continuavam sendo vistos como “oposição irresponsável”, que jogava para o povo ideias ultrapassadas e perigosas, que desmontariam a república brasileira e catapultariam o país ao caos.

FHC venceu sua segunda eleição baseada nesta representação monstruosa que a imprensa fez da chapa Lula/Brizola, o país passava por uma crise que só fazia aumentar e o presidente tucano percebia a desconfiança do povo em pesquisas de opinião.  Mesmo assim venceu o “pior sem eles…”

A Carta ao Povo Brasileiro e apoios além esquerda

As eleições de 2002 trouxeram um Lula capaz de conciliar o PT em direção ao centro, explorar a crise que apontava a ruptura de um modelo que esgotara o país ao longo de 8 anos de políticas recessivas.

Mas só o desgaste do governo FHC não seriam suficientes para eleger Lula, até porque Ciro e Garotinho também representavam a “novidade” eleitoral em 2002.

A formulação da Carta ao Povo Brasileiro, firmando compromissos como o respeito aos contratos, representou a grande jogada política da oposição naquele momento: apresentar propostas, consideradas factíveis por segmentos sociais que sempre tiveram receio de apoiar o PT, e fazê-lo simpático e eficiente para a dura travessia da crise que massacrava o povo trabalhador.

A Carta ao Povo Brasileiro foi o passaporte para o PT e seus apoiadores ultrapassarem a faixa que dividia quem governava o país, de quem apenas opunha “tudo aquilo que estava posto” aos olhos das pessoas comuns.

A armadilha criada pela grande imprensa

Posto tudo isto acima, em parte, dá para entender porque a opinião pública, mesmo bombardeada diariamente por informes negativos da atuação do governo federal em qualquer setor, o povo brasileiro apoiava Lula e apóia Dilma em sua grande maioria.

A grande imprensa foi vítima de sua própria artimanha.

Falar mal apenas, não é suficiente.

Nem dito pela oposição, muito menos dito pelos articulistas da imprensa conservadora.

A opinião pública quer é propostas, quer vislumbrar algo de diferente “de tudo aquilo que está posto”, para arbitrar [ou não] uma mudança de rumo.

Ocorre que a oposição não é capaz de formular ideias novas, não representa a maioria da população e carrega consigo um pesado fardo de suas danosas experiências administrativas para a maioria do povo, quando governou o país.

Por outro lado, o governo petista trouxe para a agenda política questões político-sociais inadiáveis, imprescindíveis para a redenção de dois terços da população que não costumava ser agraciada pelo limitado alcance do braço do governo central.

A economia e o contexto social moldados nos dois governos Lula e mantidos por Dilma, elevaram a esquerda a um papel de formulador qualificado das soluções dos problemas históricos do Brasil, por mais que ainda precisem ser aprimorados, tais instrumentos são muito representativos do que a simples grita do “tudo aquilo que estava posto até 2002”.

A falta de rumo da oposição

Não adianta apenas Aécio Neves, Serra ou FHC, escreverem artigos ou concederem entrevistas, em espaços generosos da grande mídia frequentemente, demonstrando contrariedade com o governo Dilma sem apresentarem, convincentemente, soluções para acelerar a resolução de grandes mazelas sociais do Brasil, que afligiram e ainda afligem, milhões de brasileiros, apesar de muito menos atualmente, segundo recentes pesquisas.

Não é mais suficiente Miriam Leitão, Reinaldo Azevedo, o Jornal Nacional, O Globo, Folha de São Paulo, Estadão, Veja, Época e afins, cutucarem o governo e, em uníssono, discursarem que o Brasil caminha a passos largos para o seu fim, ou de seus valores cristãos ou enquanto nação alicerçada por séculos de exclusão.  Só  isto não será capaz de convencer a grande maioria do povo brasileiro a mudar o rumo.

O Brasil hoje é outro.  Lula e Dilma constroem o Novo Brasil, protagonista no tabuleiro das decisões mundiais, soberano e sólido economicamente.  Resolvendo, em curto espaço de tempo, alguns dos problemas sociais de nossa História.

A opinião pública, em geral, foi adestrada pelos senhores da opinião, a não dar ouvidos ao chororô de perdedores, a não considerar ofensas e discursos raivosos como parte de uma solução, ampla e eficaz.

Isto é o que fazem, juntos, ensaiados e desesperados, a imprensa conservadora e a oposição.

O Globo e o modo recalcado de noticiar e afundar-se no descrédito

Sou morador do Rio de Janeiro e no caminho para o trabalho, geralmente, paro em alguma banca de jornal para ver as chamadas dos grandes jornais fluminenses, principalmente de O Globo, e impressiona que, diariamente, este jornal explore apenas notícias desfavoráveis ao governo.  Qualquer senão, qualquer frase solta de um contexto, vira um factóide nocivo ao governo.

Penso que para as pessoas, que como eu leem tais manchetes, seja transmitida uma mensagem do recalque, analogamente, como aquela pessoa que não gosta daquele outro de quem fala mal todo santo dia e, dessa forma, vê comprometida sua credibilidade frente ao conjunto da sociedade.

O risco da derrota do modelo que Dilma hoje é expoente, passa, principalmente,  pelo esgotamento das políticas que aí estão lançadas, o que pode ocorrer pela ocorrência de uma grave crise conjuntural internacional,  ou pela acomodação do governo ao não ser capaz de radicalizar e aprofundar políticas necessárias para o conjunto da sociedade, como a reforma agrária e o combate a pobreza extrema, por exemplo.

A lição da derrota do petismo em Porto Alegre em 2004

Creio que desta maneira o PT perdeu em Porto Alegre em 2004.  Pela exploração da oposição e da mídia da estagnação do modelo que o PT representava para a cidade,  e pela ideia de que somente seus críticos poderiam credenciar-se como agentes do avanço contínuo e acelerado, o “podemos fazer mais e melhor e mais rápido”.

Esta derrota, gerou a pecha da acomodação e da estagnação que viraram discursos correntes em 2008 e possivelmente em 2012.  O que pode explicar, em parte, as derrotas de 2004, 2008 e a incapacidade de montar um palanque petista capaz de derrotar seus adversários, convencendo a população e as forças progressistas que o modo petista de governar pode ser reinventado e radicalizado em prol da maioria.

O aprendizado das derrotas petistas em Porto Alegre, após quatro sucessivos e bem avaliados governos municipais, deve servir de lição para o governo Dilma seguir mudando estruturas viciadas e aprofundando ações que beneficiem o povo brasileiro, em sua imensa maioria, tornando o discurso político dos opositores e as manchetes da mídia como clássicas reclamações sem embasamento e ineficazes, choro dos perdedores.

Hoje o PT, apesar de toda a propaganda política extemporânea negativa, capitaneada pela grande imprensa, não é mais encarado como um ente do atraso ou do mal, assim como os seus aliados, à esquerda.  Como já foi [e ainda é] pintado em cores vivas pela mídia corporativa.

Avançar na inclusão social de milhões, vencer a miséria, consolidar a soberania nacional e manter a economia nos trilhos são requisitos importantes para o projeto de poder do partido e de seus aliados permanecer vigente.
Mas o risco da estagnação pode servir de cela para o cavalo que a oposição tanto aguarda passar para montar.

*Publicado originalmente em 14 de março de 2012, com algumas correções, mas que ainda reflete possibilidades político-eleitorais muito atuais

Anúncios

2 comentários em “O cavalo selado que a oposição aguarda

  1. Pingback: O cavalo selado que a oposição aguarda | EVS NOTÍCIAS.

  2. Pingback: O cavalo selado que a oposição ag...

Deixe aqui seu comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Democratização da mídia, apóie!

Seja amigo do Barão!

Digite seu e-mail para seguir este blog e receber notificações de novos posts.

Junte-se a 3.452 outros seguidores

%d blogueiros gostam disto: