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Onde não há médico brasileiro, povo aguarda ansiosamente estrangeiros

Médicos brasileiros procuram grandes centros para clinicar, distribuição no Brasil é  desigual e pune populações de municípios distantes das capitais.  Mesmo assim médicos das grandes cidades são contra a chegada de colegas cubanos, mas povo anseia pela chegada dos estrangeiros

Médicos brasileiros procuram grandes centros para clinicar, distribuição no Brasil é desigual e pune populações de municípios distantes das capitais. Mesmo assim médicos das grandes cidades são contra a chegada de colegas cubanos, mas povo anseia pela chegada dos estrangeiros

Municípios rejeitados por brasileiros dizem aguardar com ansiedade a chegada dos profissionais de outros países

Os prefeitos dos municípios que foram rejeitados pelos profissionais brasileiros que aderiram ao programa Mais Médicos aguardam com ansiedade a chegada dos estrangeiros para prestar atendimento à população. Na lista do Ministério da Saúde constam 701 municípios em que nenhum médico se candidatou a ocupar as vagas disponíveis, muitos localizados em regiões distantes dos grandes centros e, geralmente, com baixíssimo índice de desenvolvimento humano (IDH).

É para esses municípios que o governo pretende enviar os médicos estrangeiros que chegaram ao País no fim de semana, entre eles, 400 cubanos. O Ministério da Saúde previu para esta quinta-feira a divulgação da lista das cidades que receberão os médicos estrangeiros.

Diante da precariedade do atendimento de saúde, o prefeito de Ouro Branco (AL) pediu, pelo menos, cinco médicos para atender à demanda diária de 200 consultas somente na área urbana. Para ele, a resistência à vinda dos médicos estrangeiros se restringe a algumas entidades médicas.

“Não se trata de uma resistência da população. Para Ouro Branco, pode vir médico até da China que a gente recebe de braços abertos”, diz o prefeito Atevaldo Cabral da Silva (PMDB), que já mantém no município uma casa específica para abrigar os médicos.

Ouro Branco fica a 240 quilômetros de Maceió, em pleno sertão alagoano. Com uma população de quase 11 mil habitantes, os três médicos atualmente contratados pela prefeitura pelo Programa Saúde da Família (PSF) não conseguem dar conta da demanda urbana e nem de realizar as visitas às famílias que moram na área rural. “Um médico, com muito boa vontade, consegue dar conta de atender 40 pessoas por dia. Precisamos de ajuda”, afirma Silva.

“Estou falando de carência. Não temos médico para atender aos problemas cotidianos, rotineiros, como aquelas febres, gripes, viroses. Os casos mais graves a gente manda para o hospital de Santana do Ipanema, a 35 quilômetros, mas sem a garantia de atendimento, já que faltam médicos lá também. Se conseguirmos esses cinco médicos, eles serão recebidos com festa”, garante o prefeito.

Marilene Palhares, chefe da representação em Manaus do município de Anamã (AM), demonstra a decepção na voz de não ter nenhum candidato para trabalhar na cidade. Com 10,3 mil habitantes, Anamã possui quatro equipes do programa Saúde da Família e paga mais três médicos para atuarem no hospital de baixa complexidade do município. Os sete médicos não trabalham todos os dias. Hoje, o esforço é para garantir um médico por dia.

“É muito pouco perto do que a gente precisa”, garante Marilene. Ela conta que a casa para abrigar os médicos de fora já está pronta e o município garantirá todo o apoio aos profissionais. Marilene entende as reclamações da classe médica por causa da falta de infraestrutura e defende mais investimentos na área. Mas diz que os médicos são necessários.

Em Anamã, quando alguém precisa realizar um procedimento de maior complexidade, como cirurgias, tem de procurar outra cidade. O encaminhamento, segundo ela, é feito para Manacapuru (cidade-polo da região) ou Manaus, capital do estado. Para chegar à primeira cidade, os pacientes levam de duas a três horas de barco. Para Manaus, o tempo aumenta para cinco horas de lancha rápida ou oito horas de barco.

O cronograma do governo prevê que os estrangeiros comecem a trabalhar no dia 16 de setembro. Até lá, os médicos passam por uma capacitação de três semanas nas universidades federais das capitais. No treinamento, os profissionais também vão se familiarizar com a língua portuguesa. Os médicos brasileiros inscritos no programa começam a trabalhar no dia 2 de setembro.

Outro caso típico das dificuldades enfrentadas em relação ao acesso à saúde é de Rio Grande do Piauí, município com 6,4 mil habitantes em pleno semiárido nordestino. O prefeito diz que o município já mantém a casa para abrigar os médicos e que não acredita que haverá resistência aos estrangeiros. “O que as pessoas querem é ser atendidas”, diz o prefeito Gilmar Siqueira Martins (PSB).

Atualmente o município conta com três médicos que não conseguem atender a maior parte da população moradora da área rural. Por não ter médicos suficientes na cidade, a solução é mandar de ambulância os casos mais graves para serem tratados em Floriano, município onde se tem hospital, localizado a 136 quilômetros.

“Quando conseguimos contratar um médico, ele fica cerca de três meses, só enquanto não consegue um município mais perto do mar ou de alguma cidade mais desenvolvida. O último foi embora para trabalhar em Parnaíba”, reclama o prefeito.

“Temos apenas uma ambulância com sete anos de uso e que, às vezes não tem condições de ser usada. Neste caso, a gente até recorre a carros particulares para levar as pessoas doentes. Ontem, por exemplo, a ambulância fez duas viagens a Floriano para levar doentes”, conta.

Além disso, há situações que o hospital de Floriano também não consegue resolver. “Aí a gente manda seguir viagem até Teresina. Neste caso são 370 quilômetros”, disse o prefeito. Segundo Gilmar Martins, o município também já mantém uma casa para que os médicos estrangeiros possam morar e aguarda uma ambulância nova.

Ig

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