Palavras Diversas

Desde 2010 observando política, mídia e sociedade

[o que pensam alguns] Jovens da “revolução das tarifas de ônibus”

 

Cerca de 5 mil manifestantes saíram as ruas para pressionar a prefeitura para cancelar reajuste das passagens de ônibus no Rio de Janeiro

Cerca de 5 mil manifestantes saíram as ruas para pressionar a prefeitura para cancelar reajuste das passagens de ônibus no Rio de Janeiro

O Rio de Janeiro foi palco de mais uma manifestação do movimento contrário ao reajuste das passagens de ônibus. Cerca de 5 mil manifestantes ocuparam a avenida Rio Branco e seus arredores, número menor do que o esperado pelos organizadores do protesto.

Em Porto Alegre e Goiânia o preço das passagens foi reduzido devido a pressão popular.

No Rio de Janeiro há resistência da prefeitura no sentido de voltar atrás e cancelar o aumento.

Estava no Centro da cidade, onde trabalho e curso inglês.  Na volta para casa, por volta das 20h30 encontrei alguns jovens que deixavam a manifestação em direção as suas casas.  Em um ônibus…

Não os conhecia e resolvi puxar assunto sobre os protestos de hoje.

Um dos rapazes iniciou a conversa, muito falante e empolgado, e falou em 10 mil pessoas participando do evento, a polícia havia estimado 1,5 mil… Divergência natural de estimativas.

Entre alguns clichès e palavras de ordem, pude perceber que, ao menos estes manifestantes, se portam como aquelas pessoas que são contra todo poder constituído e se perdem em suas ladainhas partidárias.

Os meninos pareciam filiados ao PSOL, foi o que pareceu quando culparam a presidenta Dilma por não exercer sua autoridade sobre o prefeito e decretar que a passagem não sofra reajuste, ou afirmar que o “PT se aliou aos apoiadores da ditadura”.  Retruquei que o prefeito de Macapá, Clécio Luís, do PSOL, havia fechado aliança para governar com o DEM e o PSDB [alguns dos patrocinadores da ditadura]… O rapaz disse que reprovava tal política em “seu partido”, mas mudou o assunto e voltou suas baterias contra o PT e sua “juventude comprada”.

Nota: a juventude do PT participou do ato contra o aumento das passagens, mas para meus vizinhos de assento no ônibus, não passam de “vendidos”, assim como o PC do B e a UNE que, segundo eles, “despolitizam o debate”.

A conversa desembarcou na crise econômica européia e o movimento de resistência a Troika.  Perguntei-lhe se considerava que o Brasil passava pelos mesmos dramas que passam Espanha e Grécia, teve que admitir que não.  Mas enfatizou a magnitude da mobilização espanhola e grega para tentar barrar as políticas neoliberais.  Os meninos acreditam [ou tentam fazer crer] que o governo brasileiro reproduz com firmeza a cartilha neoliberal…

Mais uma vez contrapus suas posições e disse que o governo brasileiro não adotou amargas medidas recessivas, como as que a Espanha, Grécia, Irlanda e Portugal puseram em prática, castigando severamente os trabalhadores destes países.  Mesmo com a oposição de grande parte do povo, os governos europeus aprovaram políticas nocivas a sociedade no parlamento de maneira absoluta, sem ceder um só palmo em seus intentos.

Nem Dilma, nem Lula impuseram uma agenda neoliberal para enfrentar a crise mundial do capitalismo, o que um dos jovens admitiu estar ocorrendo: “o mundo passa uma grave crise [econômica e social]”.

Um outro reconheceu que o Brasil atravessa um período de pleno emprego, mas parece querer crer que isto não é resultado das políticas do governo, como se fosse mera obra do acaso… É preciso reconhecer aquilo que dá certo e criticar aquilo que não concorda.

Em alguns pontos houve concordância entre nós, como sobre a boçalidade reacionária de Arnaldo Jabor e seus comentários despropositais sobre os protestos se darem “por causa de míseros R$0,20”.  Ou sobre como a mídia hegemônica os classifica acriticamente como  simples baderneiros, violentos e inconsequentes.  Desprovidos de qualquer ideal comum ou político.

Ou sobre a impossibilidade das pessoas poderem se informar decentemente através da leitura da Veja e de O Globo, entre outros panfletos conservadores.

Assim como do entendimento da necessidade urgente de uma reforma política que impeça doações financeiras de empresas privadas a candidatos e partidos políticos e que as receitas das agremiações advenham, unica e exclusivamente, de recursos públicos, balizando campanhas em idéias e não escoradas no abuso do poder econômico.

Um dos jovens se sentiu revoltado com o rótulo que setores da imprensa e demais não manifestantes impõe a eles: tudo petralha!

Eles quiseram deixar claro que não eram petistas.  O ódio ao PT e a Lula [muito mais que a Dilma], parece entronizado no discurso de jovens militantes da auto intitulada extrema esquerda.  Não ouvi muitas reclamações direcionadas aos tucanos ou aos demos.

Considero que a participação popular seja essencial para a democracia, para que sua radicalização promova justiça social, que reduza os espaços ocupados pelos retrógrados pensamentos conservadores que nos ameaçam, vide Felicianos e partidos apolíticos que nos assombram.

Quando a sociedade se mobiliza por causas que beneficiam a grande maioria, seu sucesso é um claro sinal de alerta para as elites e sinal de força do coletivo.  Desequilibram o jogo em favor da massa e privilegia seus interesses no debate político permanente.

Discordo de muitos dos pontos colocados pelos militantes populares contra os aumentos abusivos das passagens, falo em relação aqueles com quem pude conversar, civilizadamente, em um ônibus na volta para casa.

Acredito que o país avança, mesmo que a passos mais lentos do que espero, mas avança em direção da justiça social.  Apesar das palavras de ordem, creio haver muitos pontos que podem mais unir do que afastar [ainda mais] tais filiações partidárias.

Um dos meninos provocou: “porque o PT e o PC do B não governam sozinhos e se juntam a oposição [PSOL]?”.

O que eu penso: a sociedade ainda não foi informada, conscientizada e mobilizada de maneira eficiente, para ser capaz de eleger um parlamento e governantes, ao mesmo tempo, progressistas e defensores do bem estar social da maioria da população brasileira.  A governabilidade, infelizmente, provoca certas discrepâncias político-ideológicas…

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4 comentários em “[o que pensam alguns] Jovens da “revolução das tarifas de ônibus”

  1. luizmullerpt
    18/06/2013

    Sobre o teu ultimo parágrafo, é verdade que a governabilidade exige certos malabarismos ideológicos. Mas isto tem limites. No governo, o PT precisa negociar a governabilidade mas sem abrir mão do pressuposto da democracia. E um Estado que coloca a polícia a bater no povo por protestar, definitivamente não é democrático. Foi a violência da Polícia em São Paulo que provocou as grandes mobilizações no Brasil Inteiro. Sem uma direção política clara, o povo reivindica qualquer coisa, tanto o que pode como o que não pode ser realizado pelo governo que precisa manter a governabilidade. Que realize então o que é possível ser realizado. Euma das reivindicações de ontem, 17/06, era mais dinheiro para a educação. A Dilma fez a sua parte: mandou para o Congresso a MP dos Royalties do Petróleo. Uma excelente bandeira. Mas se este mesmo povo não for chamado à rua, os congressistas, imbuídos de interesses mesquinhos, patrimoniais e regionais, não permitirão. Isto requer um Partido com uma linha clara, nas ruas, junto com o povo.

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  2. luizmullerpt
    18/06/2013

    Com certeza, um bom texto.

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  3. diversaspalavras
    16/06/2013

    Luiz Muller fique a vontade para republicar os textos do blog, desde que cite a fonte e disponibilize o link da postagem original, como vc fez, tá ótimo!
    Obrigado!

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  4. luizmullerpt
    16/06/2013

    Republicou isso em Luizmuller's Blog.

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