Palavras Diversas

Desde 2010 observando política, mídia e sociedade

Juras secretas




Jura secreta 15 sonhos de verão 

lendo em teu livro/corpo 
corpo/livro que me empresta 
este poema é o que resta 
das mil e umas noites de verão 
quando pensei em Teerã 
você sonhava comigo 
e eu coloquei no teu umbigo 
veneno doce da maçã 

e o vermelho sangue da pitanga 
foi o que ficou na minha tanga 
quando beijou meu sexo de manhã 

e eu solto velas ao vento 
na travessia espaço e tempo 
sendo real ou tanto faz 
com a linguagem que invento 
para aportar teu porto e cais 




Jura secreta 14 



eu te desejo flores lírios brancos 

margaridas girassóis rosas vermelhas 

e tudo quanto pétala 

asas estrelas borboletas 

alecrim bem-me-quer e alfazema 


eu te desejo emblema 

deste poema desvairado 

com teu cheiro teu perfume 

teu sabor teu suor tua doçura 


e na mais santa loucura 

declarar-te amor até os ossos 


eu te desejo e posso : 

palavrArte até a morte 

enquanto a vida nos procura 



Jura secreta 13
 

o tecido do amor já esgarçamos 
em quantos outubros nos gozamos 
agora que palavro itaocaras 
e persigo outras ilhas 
na carne crua do teu corpo 
amanheço alfabeto grafitemas 

quantas marés endoidecemos 
e aramaico permaneço doido e lírico 
em tudo mais que me negasse 
flor de lótus flor de cactos flor de lírios 
ou mesmo sexo sendo flor ou faca fosse 
Hilda Hilst quando então se me amasse 

ardendo em nós salgado mar e Olga risse 
olhando em nós flechas de fogo se existisse 
por onde quer que eu te cantasse ou amavisse 



Jura secreta 12 


taubaté 

tremembé 

tamanduateí 

tabatinga 

taguatinga 

tracunhenhem 

tucuruví 


toda palavra nua me tesa 

como o t da tua tigresa 

Matisse que nunca vi 



Jura secreta 11 engenho 484 para jiddu saldanha 

arrancar do gesto 
a palavra chave 
da palavra a imagem xis 
tudo por um risco 
tudo por um triz 

o trem bala (cospe esqueletos 
no depósito da Central) 
fuzil pode ser nosso brinquedo: 
novo enredo para o próximo carnaval 



Jura secreta 10 


fosse o que eu quisesse 

apenas um beijo roubado em tua boca 

dentro do poema nada cabe 

nem o que sei nem o que não se sabe 


e o que não soubesse 

do que foi escrito 

está cravado em nós 

como cicatriz no corte 

entre uma palavra e outra 

do que não dissesse 



Jura serceta 9 

não fosse o teu amor 
o meu conforto 
e eu teu anjo torto 
como seria 
se a jura secreta 
não fosse mais que um poema 
e se eu não te amasse 
como Glauber no cinema 
o que tenho aqui 
no corpo em transe: a quem daria? 




Jura secreta 8 



hoje vi na rua a palavra ibirapitanga 

que eu não conhecia 

e mesmo não a conhecendo 

já sabia que existia 

assim como: 


ibirapitinga 

ibiratininga 

annhangabaú 

anhanguera 

araraquara 

jabaquara 

ibirapuera 


Jura secreta 7 

fosse Sampa uma cidade 
ou se não fosse não importa 
essa cidade me transporta 
me transborda me alucina 
me invade inter fere na retina 
com sua cruel beleza 

como Oswald de Andrade 
e sua realidade 
como Mário de Andrade 
e sua delicadeza 


Jura secreta 6 


o que passou não ficará já foi 

a menina dos meus olhos 

roubou a tua menina 

e levou para festa do boi 


fosse um Salgado Maranhão 

nosso batismo de fogo 

25 de março 

e o morro queimando em chamas 

no canto pro tempo nascer 


e o amor que a gente faria 

o sol acabou de fazer 


Jura secreta 5 

não fosse essa alga 
queimando em tua coxa 
ou se fosse e já soubesse 
mar o nome do teu macho 
o amor em ti consumiria 

Olga Savary 
no sumidouro dos meus dias 

o couro cru 
na antropofágica erótica 
carne viva 
tua paixão em mim 
voraz língua nativa 


Jura secreta 4 


a menina dos meus olhos 

com os nervos à flor da pele 

brinca de bem-me-quer 

ela inda pensa que é menina 

mas já é quase uma mulher 


Jura secreta 3 

fosse essa jura sagrada 
como uma boda de sangue 
às 5 horas da tarde 
a cara triste da morte 
faca de dois gumes 
naquela nova granada 
e Federico Garcia Lorca 
naquela noite de Espanha 
não escrevesse mais nada 


Jura secreta 2 


não fosse esse punhal de prata 

mesmo se fosse e eu não quisesse 

o sangue sob o teu vestido 

o sal no fluxo sagrado 

sem qualquer segredo 


esse rio das ostras 

entre tuas pernas 

o beijo no instante trágico 

a língua sem que ninguém soubesse 

no silêncio como susto mágico 

e esse relógio sádico 

como um Marquês de Sade 

quando é primavera 


Jura secreta 1 

a língua escava entre os dentes 
                      a palavra nova 
fulinaimânica/sagarínica 
algumas vezes muito prosa 
outras vezes muito cínica 

tudo o que quero conhecer: 
           a pele do teu nome 
a segunda pele o sobrenome 
no que posso no que quero 

a pele em flor a flor da pele 
a palavra dândi em corpo nua 
a língua em fogo a língua crua 
a língua nova a língua lua 

fulinaímica/sagaranagem 
palavra texto palavra imagem 
   quando no céu da tua boca 
a língua viva se transmuta na viagem 


Jura Secreta 


não fosse essa jura secreta 

mesmo se fosse e eu não falasse 

com esse punhal de prata 

o sal sob o teu vestido 

o sangue no fluxo sagrado 

sem nenhum segredo 


esse relógio apontado pra lua 

não fosse essa jura secreta 

mesmo se fosse eu não dissesse 

essa ostra no mar das tuas pernas 

como um conto do Marquês de Sade 

no silêncio logo depois do susto 


Artur Gomes
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Publicado em 16/01/2013 por em fulinaíma.

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