Palavras Diversas

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O veneno que assassinou Jango ainda assombra a democracia

João Goulart foi deposto pelos militares em 1964 e, em 1976, foi assassinado no exílio a mando do presidente Geisel , segundo confissão do ex-agente secreto do Uruguai, Mário Neira Barreto.  O ministro do STF, Marco Aurélio Mello, recentemente, considerou o golpe como “um mal necessário”…

Na semana decisiva do julgamento do mensalão no STF e das eleições em São Paulo, em que, casadinhos e entrosados, Judiciário e imprensa conservadora se completam no ofício de produzir notícias e propagá-las com fins eleitorais, eis que surge uma revelação nebulosa do passado recente do país.

Segundo declarações do ex-agente do serviço secreto uruguaio, Mario Neira Barreto, o ex-presidente João Goulart foi envenenado a mando a ditadura brasileira, com conhecimento e autorização do presidente Ernesto Geisel, a pedido do ex-delegado Sérgio Paranhos Fleury, do Dops (Departamento de Ordem Política e Social).

Aos poucos a verdade vai surgindo e desvendando plenamente o horror praticado pelo estado de exceção iniciado em 1964 com o golpe dos militares e saudado pela imprensa, à época, como uma resposta democrática ao perigo comunista.

As manipulações midiáticas permanecem como prática comum para a formação de opinião pública favorável aos intentos de uma elite reacionária.  Somente as justificativas para a farsa e o golpismo mudaram e se adequaram aos novos contextos políticos.

Hoje estão mais propensas a se desenvolverem nas mais altas cortes do que em quartéis, como ocorrido em Honduras e no Paraguai recentemente.

Segundo trechos de uma entrevista de Barreto a EBC (Empresa Brasileira de Comunicação), publicados em Opera Mundi , suas confissão e testemunho confirmam a ação terrorista do Estado brasileiro contra um ex-presidente deposto e exilado no Uruguai:

“Passei três anos gravando coisas do Jango, pensando em roubar a fazenda dele,o ouro que ele guardava. Mas então eu sou um ladrão fracassado. Por quê? Eu não roubei nada dele, como ladrão ou bandido eu não me dei bem. Foi uma operação muito prolongada que, no princípio, a gente não sabia que tinha como objetivo a morte do presidente Goulart”.

“Por que o Jango foi o perigo de toda essa história e foi decidida sua morte? Porque o Jango era perigoso por aquele jogo de cintura. Era um político que se aliava a qualquer um para conseguir o objetivo de levar o Brasil novamente a uma democracia”.

“Jango era o pivô porque forneceria as passagens, iria aos Estados Unidos e voltaria com toda aquela imprensa a Brasília, [passando] primeiro em Assunção, onde seria o conclave, a reunião de todas as facções políticas do Brasil que se encontravam dispersos e exilados, e ele faria possível essa reunião”.

“Não era bom para o Brasil…não era bom para os militares, para a ditadura. Daí que foi decidido que o Jango deveria morrer”.

“Primeiro se pensou em um veneno. Os remédios [que Goulart tomava por sofrer do coração] viriam da França, foram recebidos na recepção do hotel Liberty. Foi uma araponga que foi colocada nesse hotel, porque os remédios ficavam numa caixa forte verde. Então o empregado (infiltrado) começou a trabalhar e forneceu um lote com várias caixas de comprimido, ele não comprava uma, comprava um lote. Em cada caixa foi colocado um, apenas um comprimido com um composto. Não era um veneno, mas causaria uma parada cardíaca. Eu acho que o veneno coincidentemente, ele tomou aquela noite. Tanto o relato de Dona Maria Teresa (Fontela Goulart, viúva) quanto do capataz da fazenda é que os sintomas que eles relatam encaixam o que acontece. A pressão sobe, baixa constrição dos capilares, ele tem uma morte rápida., tomou o comprimido e já começou a se debater e, em dois minutos, morreu”.

O veneno que teria tirado a vida de João Goulart, hoje se apresenta em manobras grotescas da lei, para formular teses capengas que possam agilizar e /ou fragilizar a democracia e anular a vontade do povo.

A poucos dias atrás o ministro do STF, Marco Aurélio Mello, mais uma vez, afirmou que o golpe, ou revolução, segundo suas próprias palavras, teria sido um mal necessário para o que o Brasil é hoje.

Ao ser questionado pela Rede Brasil Atual, sobre uma afirmação sua em fevereiro de 2010, quando disse que a ditadura foi “um mal necessário tendo em conta o que se avizinhava”, Marco Aurélio saiu-se, tal como Serra, com outra pergunta:

“Eu devolvo a pergunta: sem a revolução – eu não me refiro à ditadura, ditadura é outra coisa – o que teríamos hoje? Não sei”.

Mello foi ainda mais longe em suas declarações na palestra que deu na Universidade de Guarulhos, sobre “Segurança Jurídica no país”, ao negar, com tamanho impudor, após defender o golpe de 1964 e a deposição de João Goulart , que “o julgamento (do mensalão) não é um julgamento político. Mesmo porque diante dos ares democráticos da Carta de 1988, nós não poderíamos cogitar de julgamento político”.

Não é preciso avançar mais do que aquilo que está dito e daquilo que se buscou fazer entender.

Mello ao defender o “mal necessário de 1964”, a noite negra que envolveu o Brasil por longos, tenebrosos e torturantes 21 anos, não precisava tentar emendar com aquilo que não tem lugar em seu pensamento conservador.

O julgamento molda-se também como peça integrante de um golpe, que não depende apenas de alguns atores envolvidos para se concretizar de fato e de direito.  Os acontecimentos expostos a todos os brasileiros, de maneira premeditada, em conjunto entre a grande imprensa, oposição e o Judiciário, constatam a associam para reverter a vontade popular sem a necessidade do voto e quando da necessidade do sufrágio, ações parametrizadas para influir no desejo da maioria por meio de peças jurídico-política-midiática.

O ministro foi, hoje, frontalmente contrariado pelos registros vivos da História, de que mal algum é necessário para o bem da sociedade como um todo, muito menos aqueles que são efeitos de avanços golpistas produzidos para proveito de poucos em detrimento dos anseios da grande maioria.

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