Palavras Diversas

Desde 2010 observando política, mídia e sociedade

A imprensa e o ritual do sacrifício da verdade que incomoda


Pedro Doria recusou-se a ouvir o que Boni tinha dizer sobre a edição do debate Collor X Lula em 1989.  “Fantástico” desferiu tiro de canhão na imagem do senador alagoano, para mostrar como a imprensa trata seus “traidores”

Em um programa Roda Viva exibido em 2010, da TV Cultura, em que o sabatinado da vez foi José Bonifácio Sobrinho, o Boni, ex-todo poderoso da Globo, em um determinado momento daquela exibição, Pedro Doria, jornalista do diário O Estado de São Paulo, levanta a questão sobre “a fatídica edição” do último debate entre Collor e Lula nas eleições presidenciais de 1989, levada ao ar no Jornal Nacional, na véspera do pleito.

Pedro Doria salienta que não vai pedir a Boni para que conte a história daquele episódio grotesco (este termo é nosso).

Mas Boni retruca, “eu posso contar”.

Pedro Doria não se interessa, desconsertado pela afirmativa do entrevistado. O jornalista prestigiado, de um dos maiores impressos diários do Brasil, despreza o que tem a dizer uma das pessoas que participou ou tomou conhecimento, por dentro, daquele triste episódio protagonizado pela maior emissora de televisão aberta do Brasil.

Pelo que se segue no vídeo, Doria quer “discutir” o formato dos debates de hoje e as amarras que a legislação eleitoral impõe aos meios de comunicação.

O representante do Estadão insinua que aquela edição do debate de 1989 é que trouxe tais problemas para a cobertura jornalística dos dias atuais.  Para ele, é o que denota de sua fala, este foi o único prejuízo causado pela intromissão da Globo.  A democracia ou o destino do país pouco importaram, foram atos contínuos, apenas secundários.

Talvez Doria reclamasse pela vontade de poder favorecer um determinado candidato, sem correr riscos judiciais.
Recorrendo apenas a uma edição jornalística desproporcional e por uma linha editorial facciosa, sem precisar ser inclinado a um tratamento igualitário que a lei tenta determinar para apresentar todos os postulantes a um cargo público de maneira isenta e equilibrada na mídia.

Apesar do desinteresse, Boni é enfático ao dizer, o que muita gente já sabia, outros mais souberam depois desta entrevista: “Doutor Marinho mandou editar tudo de novo (após o Jornal Hoje)… Na edição da noite (Jornal Nacional) o Collor venceu Lula por 3X0…”.

Mas esta entrevista revela e confirma a ideia de que setores da imprensa brasileira não se interessam por verdades ou versões que lhes incomodem ou aos seus parceiros políticos e econômicos, não muito incomum, os dois personificados no mesmo ente.

Ignorar a disposição de uma fonte, ao vivo, que quer falar sobre um fato importante da história do país não é o melhor papel que um jornalista pode representar, muito pelo contrário.

Mas saber de antemão o que pode ser dito e evitar alguns embaraços, talvez reconforte aqueles que emitem os pagamentos mensais de determinados profissionais de imprensa, no cumprimento canino das suas ordens mais obtusas.

Este programa foi ao ar em setembro de 2010, próximo das eleições que determinariam a vitória de Dilma sobre Serra, debates ainda ocorreriam até a realização do primeiro turno, como o da Globo, na antevéspera da votação.

As eleições de 2010 tiveram um ambiente midiático pesadamente contaminado pelo partidarismo conservador e desesperado dos grandes veículos de comunicação, ávidos por derrotar a candidata de Lula.

O que ainda é possível notar, é uma forte predisposição da imprensa conservadora brasileira, grupo que predomina neste mercado, para evitar empates editoriais ou em edições, em busca do “fatídico Collor 3X0 Lula”.

As eleições municipais de São Paulo, por exemplo, seguem em segundo plano na cobertura jornalística, porque o candidato apadrinhado pela grande imprensa lidera e quanto menos for informado sobre a disputa, menos se altera a conjuntura eleitoral neste momento.

“Fantástico” tiro de canhão

O Fantástico deste domingo, na Globo, demonstrou como este grupo age para manter sua força e destruir aqueles que se voltam contra seus interesses, mesmo aqueles que tenham sido seus vassalos mais obedientes no passado.

Em 1989 Collor foi o escolhido pelo “dr. Marinho” para vencer as eleições, contra quem atravessasse o caminho já pavimentado na ilha de edição do Jardim Botânico, mesmo que fosse preciso o proprietário do grupo de comunicações interferir e mandar reeditar os melhores momentos do último debate para eleger seu favorito, seu candidato subordinado.

Collor é um dos senadores que, atualmente, se apresenta com ímpeto para aprofundar as investigações da CPMI do Cachoeira, que se aproxima, perigosamente, da editorias de marcas importantes das comunicações brasileiras, como as revistas Veja, do grupo Abril, e Época, da editora Globo, envolvidas com o esquema corrupto do bicheiro preso pela Polícia Federal.

A grande imprensa, após a cassação de Demóstenes Torres, jogou a pá de cal sobre a comissão parlamentar, encerrando o assunto, pelo menos em suas publicações.

Por que?

Tal qual Pedro Doria no programa Roda Viva, desinteressou-se pelo o que Boni tinha a, e queria, dizer, pensando no incômodo que as revelações do diretor de TV poderiam provocar naquele contexto, A Globo, Veja, Estadão, Folha de São Paulo etc não se interessam pelo o que ainda pode surgir de comprometedor, principalmente contra a já combalida credibilidade da imprensa nas investigações em curso.

Preferem encerrar o jogo em um morno e desinteressante 0X0, temendo um acachapante 3X0 que a divulgação da verdade pode causar.

A melhor maneira, segundo os tradicionais métodos de intimidação de que dispõe, os ataques pessoais e à honra são uns dos mais letais, podem ter procurado Rosane Collor para desqualificar o ex-presidente diante dos brasileiros e, consequentemente, qualquer de suas indagações na comissão parlamentar.

Fernando Collor não é um político que deva ser qualificado como vítima do sistema.  Mas é de tal maneira envolvido pelo modo operante que certos grupos da imprensa se utilizam, que hoje destruir sua imagem, definitivamente, já muito arranhada pelo papel de capacho de interesses ocultos que desempenhou em 1989, é a prática comum para calar os que traem princípios oligárquicos básicos da corporação: um tiro de canhão na imagem do desafeto, queima de arquivo do pouco crédito que restou ao senador.

Um legítimo e “fantástico” ritual macabro de sacrifício da verdade que agora incomoda as oligarquias midiáticas.

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