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Explosão de casos de suicídios assombra gregos, a crise (também) não poupa vidas

Empresário grego, em desespero, ateia fogo a si mesmo: drama da crise

As notícias que chegam da Europa, especificamente da Grécia, causam aflição pelo o que sofre o povo grego, em uma crise que já ceifa o bem estar de milhões, varre milhares de empregos do mapa e causa séria ruptura social.
A BBC publica hoje uma matéria que trata do aumento considerável do número de suicídios no país, o governo local estima em cerca de 40% a elevação de suicídios, mas há quem diga que este número pode ser ainda maior, conforme trechos abaixo:

“George Barcouris, 60 anos de idade, sem trabalho, ele estava certo de que jamais conseguiria um novo emprego em um país onde o índice de desemprego chegou a 17% e continua crescendo sem a ajuda de parentes ou amigos, seria apenas uma questão de tempo até que o proprietário do apartamento o despejasse por causa do atraso no aluguel – imaginava Barcouris.
“Era pior durante a noite”, disse.
“Comecei a pensar, que futuro eu tenho? Seria melhor morrer durante o sono. Mas nunca aconteceu, então comecei a pensar em me matar”.

(…)No mês passado, o ministro da Saúde da Grécia, Andreas Loverdos, disse que o número de suicídios no país pode ter subido 40% nos primeiros meses de 2011.

“Na realidade, é bem provável que os índices sejam bem mais altos”, disse a psicóloga Eleni Bekiari, que trabalha para Klimaka.
Ela explicou que o estigma em torno do suicídio na Grécia é fortíssimo e que o problema é acentuado pela recusa da Igreja Ortodoxa grega em realizar cerimônias fúnebres para os suicidas.
“Muitos dos que nos telefonam dizem que planejam dirigir seus carros do topo de um penhasco ou contra uma rocha para que tudo pareça um acidente. Dessa forma, suas famílias e a comunidade nunca saberão que foi suicídio”, disse Bakiari.

Para outros, a pressão é grande demais e sua angústia mental torna-se pública.
Como no caso do empresário Apostolos Polyzonis, da cidade de Thessaloniki, que na semana passada ateou fogo a si mesmo em frente a uma agência bancária.
O banco pediu de volta o empréstimo que havia dado à sua empresa, deixando-o falido e sem um centavo.
Incapaz de continuar pagando pelo curso universitário da filha e temendo que sua casa fosse confiscada, Polyzonis foi ao banco implorar por um empréstimo.

“Quando se recusaram a me receber senti um desespero tão grande que perdi o controle”, disse o empresário.
Ele parou em frente ao banco, jogou gasolina sobre seu corpo e ateou fogo a si mesmo.
Polyzonis foi levado ao hospital e recebeu tratamento para queimaduras, mas as piores cicatrizes, ele diz, estão do lado de dentro.
“Meu filho acaba de completar o serviço militar e não consegue encontrar um emprego, minha mulher e eu estamos desempregados e com frequência passamos necessidade”.
“Nós raramente saímos de casa, (isso) destruiu nosso respeito próprio”.
“Mas não estou sozinho, milhões de gregos estão sofrendo por que alguns milhares de ladrões saquearam o país com sua corrupção”, disse Polyzonis.

(…)”A Grécia costumava ter o menor índice de suicídios da Europa”, disse Bakiari, da ONG de prevenção ao suicídio Klimaka.
“O peso da crise é simplesmente maior do que a capacidade desta sociedade de sustentá-lo, o que esse país realmente precisa é de um plano nacional para a prevenção de suicídios com mais serviços do que temos no momento”.
Mas o governo grego, com o cinto apertado, não ofereceu qualquer ajuda financeira adicional à Klimaka. E apesar do aumento na demanda por serviços desse tipo, há poucas chances de que novas políticas de saúde sejam implementadas em um período de cortes tão drásticos.

Estes relatos, dão contornos reais a esta crise social devido, principalmente, ao esgotamento de um modelo econômico que vem provocando crises cada vez mais frequentes, causando desemprego em massa, crescimento vertiginoso do pedido de falências, graves distúrbios sociais, como o aumento da violência e de greves, além de produzir dramas terríveis como o suicídio. Pessoas que não vislumbram um horizonte promissor para além desta crise nos países desenvolvidos e sucumbem em meio a felicidade de alguns poucos que lucram cada vez mais com a desgraça alheia, os mesmos que provocam o desemprego e a falência de pequenos e médios negócios, aqueles 1% que o movimento Occupy Wall Street, mundo afora, tem deplorado em suas manifestações.

O Brasil viveu um período nefasto, parecido com o que vive a Grécia nos dias atuais. No início de 1990, com o agravamento da crise econômica que desorganizava a economia e gerava índices de desocupação altíssimos. Saques a supermercados eram comuns no noticiário nacional, a violência e a miséria atingiam uma parcela considerável da população brasileira. O governo Collor, em uma experiência sem precedentes, confiscou dos brasileiros suas economias depositadas em bancos e iniciou um radical processo de privatizações e demissões involuntárias do serviço público, o que gerou o suicídio de muitas pessoas pelos trágicos resultados provocados por essas medidas irresponsáveis naquele ano. Vivemos ao longo dos anos 1990 um período de duro arroxo fiscal e a perda da capacidade do estado de investir, com poucas perspectivas de inclusão social e de redução da pobreza.

Uma década perdida, tal como experimentam agora os gregos. Resultados, incontestáveis, do receituário neoliberal imposto pelos organismos internacionais e aceitos docilmente pelos governos locais, em ambos os casos.

O remédio que a União Européia aplica a frágil economia grega mais perto está de destruí-la em sua essência, do que de curá-la. Não se sensibilizam com o preço a ser pago pela sociedade, as doses cavalares estão sendo aplicadas a força, contra a vontade de um paciente contaminado por uma doença que seus “médicos” ajudaram a disseminar.

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    Publicado em 18/10/2011 por em Uncategorized.

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