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O Futebol analisado sob outra ótica: relações de poder, segundo Gabriel Kuhn

Javier Zanetti, capitão da Inter de Milão em 2005, leu carta de apoio aos rebeldes mexicanos

Poderes do futebol 


A obra de Kuhn reproduz uma carta que o subcomandante Marcos,
do Exército Zapatista de Libertação do México, dirigiu em maio de 2005 
a Massimo Moratti, presidente da Internazionale de Milão, em agradecimento 
por seus jogadores terem doado dinheiro, ambulância 
e uniformes de futebol aos rebeldes mexicanos.
 

Um livro sobre futebol e ideologia lançado em inglês no início deste ano merece tradução imediata em português. Trata-se de Soccer vs. the State – Tackling Football and Radical Politics, obra do ex-jogador, escritor e líder anarquista austríaco radicado na Suécia Gabriel Kuhn, publicada pela PMPress dos Estados Unidos. Uma tradução livre do título seria O futiba vs. o Estado – Dando um Carrinho no Futebol e na Política Radical.

Kuhn faz inicialmente uma história sobre as verdades e os mitos do futebol como um esporte das classes trabalhadoras. Ele nota como o mito da ligação dos operários industriais com o futebol tem fundamento na história de um esporte que, embora desenvolvido nas aristocráticas escolas inglesas no século 19, em poucas décadas se tornou a atividade preferida dos trabalhadores ingleses, que o espalharam igualmente entre os trabalhadores da Europa e da América Latina. Também observa como o futebol deu lugar ao críquete e ao rúgbi em países dominados pela Grã-Bretanha, como a Índia e a África do Sul, para onde não foram trabalhadores, e sim militares e altos funcionários britânicos.

Nos Estados Unidos, o soccer foi introduzido no século 19 em universidades como Harvard, que logo o substituíram pelo rúgbi e pela sua derivação, o futebol americano. Lá, o nosso futebol continuou popular entre os trabalhadores imigrantes, primeiro de origem europeia e depois latino-americana.

O esporte também é popular na classe média alta e especialmente entre as mulheres americanas. Kuhn chama a atenção para o fato de que, no Brasil, o primeiro time de futebol oficial a admitir brasileiros foi o Mackenzie, uma instituição americana, na passagem do século 19 para o 20. Conta ainda como o esporte esteve estreitamente ligado ao sindicalismo de esquerda nos EUA.

De início, na Europa e na América Latina as lideranças socialistas, anarquistas e comunistas viam o futebol como um jogo que desviava a atenção das camadas populares quanto à situação econômica, social e política. Logo, porém, parte de tais lideranças se deu conta de que o futebol era não só um modo de expressão cultural e artística dos trabalhadores, mas também uma maneira de organizá-los. Na Alemanha do início do século 20 surgiram duas federações, uma de times socialistas, outra de times anarquistas. Ambas foram depois proibidas pelos nazistas. O Uruguai também viu nascer, nos anos 1920, uma liga anarquista. Muitos clubes hoje profissionais e populares foram fundados por trabalhadores esquerdistas, em especial na Europa e na América Latina. Na África, houve equipes criadas por nacionalistas e anticolonialistas.

Kuhn discute ainda outro aspecto: como o futebol funcionou como “ópio do povo”. Um dos pioneiros a tirar proveito dos triunfos no esporte foi Mussolini na Itália fascista, que desfrutou da aura de heroísmo da seleção italiana, vencedora das Copas de 1934 e 1938. Isso se repetiria nos regimes autoritários da América Latina e da África. É notável o depoimento de uma presa política argentina ao lembrar que, em pleno cárcere, quando a seleção de seu país se tornou campeã mundial em 1978, ela abraçou… seu próprio torturador!

O livro narra também como o Partido Comunista Francês, no auge de sua popularidade, no início da segunda metade do século 20, chegou a manter um semanário exclusivo sobre o futebol, em que procurava convocar torcedores, jogadores amadores e profissionais para a luta política contra a mercantilização do esporte.
Chuteiras e véus

Um grande espaço do livro é dedicado às mulheres, que mantinham times de futebol já na Inglaterra do século 19. Um time profissional inglês feminino, em excursão pelos Estados Unidos no começo do século 20, colecionou vitórias contra times masculinos. Depois, o futebol de mulheres se tornou praticamente proibido até os anos 1970. Hoje é imensamente popular em países como Estados Unidos, Alemanha, Suécia, China e até Irã, embora suas praticantes sejam oficiosamente proibidas pela Fifa de participar de competições internacionais, pois a entidade não aprova o curto véu que insistem em usar.

A obra de Kuhn reproduz uma carta que o subcomandante Marcos, do Exército Zapatista de Libertação do México, dirigiu em maio de 2005 a Massimo Moratti, presidente da Internazionale de Milão, em agradecimento por seus jogadores terem doado dinheiro, ambulância e uniformes de futebol aos rebeldes mexicanos. Na ocasião, o capitão do time italiano, o argentino Javier Zanetti, declarou em carta: “Acreditamos num mundo melhor, num mundo não globalizado, enriquecido pelas diferenças culturais e pelos costumes de todos os povos. É por isso que queremos apoiá-los nesse combate para manterem suas raízes e lutarem por seus ideais”.

Mas a preocupação maior de Kuhn é documentar a luta política de esquerda contra a comercialização e a elitização do futebol, assim como contra o chauvinismo, o racismo, o machismo e a homofobia de setores da torcida em todos os países. O autor enfatiza, ainda, a luta em favor da prática do futebol (as pessoas não deveriam se limitar a ver, mas deveriam também jogar) e das ligas alternativas, em especial as organizadas por esquerdistas e anarquistas como ele. Por exemplo, times de comunistas e de anarquistas chegaram a se enfrentar em Berkeley, centro universitário da Califórnia, Estados Unidos.

De interesse particular para os brasileiros é a entrevista com Danilo Cajazeira, do Autônomos FC de São Paulo. Conta Cajazeira: “O Autônomos FC foi fundado em maio de 2006 por um grupo de punks que estavam cansados de ser questionados por outros punks a respeito de sua paixão pelo futebol e de ser questionados por torcedores de futebol a respeito de sua paixão pelo punk. Pensamos que seria melhor simplesmente misturar as duas coisas e avaliamos que a paixão pelo faça-você-mesmo do punk, misturada com a paixão pelo futebol, só nos fortaleceria”.

E prossegue: “Nunca houve necessidade de pôr nossos princípios por escrito, porque sempre tivemos certeza deles: antirracismo, anti-homofobia, antimercantilização, solidariedade, autogestão. A ambição do clube era jogar futebol e divulgar a mensagem de que, se todo mundo pode jogar futebol, todo mundo pode participar do desenvolvimento da sociedade. Hoje temos dois times de futebol de campo de homens e um time de futebol de salão de mulheres, e a cada jogo mais gente aparece”.

A grande esperança de Cajazeira é organizar na América Latina uma copa do mundo alternativa, como a realizada anualmente na Europa. “Recentemente fiquei sabendo do Club Social, Atlético y Deportivo Ernesto Che Guevara, na Argentina. Já discutimos para agendar um encontro para trocar experiências e organizar a Copa Alternativa Sul-Americana.”

Renato Pompeu / Rede Brasil Atual

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Publicado em 20/07/2011 por em futebol, politica.

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