Palavras Diversas

Desde 2010 observando política, mídia e sociedade

Parte I – El País: O diário que melhor enxerga o Brasil (direto de Madrid)

EL País: Brasil, o “país do presente” e potência mundial, em 2009

EL PAÍS: Como respeitar a inteligência do leitor

Entre 7/4/2001 e 31/3/2011, o jornal espanhol El País publicou nada menos de 3.085 matérias em que o Brasil é protagonista ou em que é referido, seja por suas políticas públicas, seja por sua cultura, sua economia, seja por seus eventos e também por seus desafios. Publicou editoriais sobre os êxitos do país no campo da mobilidade social, festejou os triunfos de o país ser escolhido para sediar a Copa do Mundo de Futebol de 2014, além de não deixar ao sereno a escolha da cidade do Rio de Janeiro para receber os Jogos Olímpicos de 2016 – batendo não apenas Tóquio e Chicago, mas também Madri. E acompanhou com notável interesse a trajetória política de Luiz Inácio Lula da Silva, em especial nos meses que antecederam sua eleição de presidente do Brasil.

Relativamente novo – surgiu em 4 de maio de 1976, com 180 mil exemplares de tiragem –, El País pode festejar não sua longevidade, sua história em lustrosos números redondos (50, 60, 70, 100, 150 anos), mas, sim, seu apurado faro para a notícia, para dar furos, para levar a sério conceitos basilares do jornalismo, conceitos que em outras publicações – como, infelizmente, em grande parte dos jornais brasileiros – nada mais são que chavões, slogans publicitários, tema de campanha para angariar novos assinantes. Começou, portanto, a circular e a construir sua fama como celeiro de bons jornalistas ao mesmo tempo em que a Espanha fazia sua transição do regime ditatorial para o democrático.

Compromisso pétreo com o leitor

El País vê a si mesmo como “um jornal global, independente, de qualidade e defensor da democracia pluralista”. O jornal espanhol se caracteriza pelo grande destaque a informações de âmbito internacional, de cultura e de economia e, obviamente, sobre a Espanha. E não apareceu na cena editorial para ser apenas mais um. Foi além, sendo o primeiro jornal a adotar um Manual de Redação (por eles chamado Libro de Estilo) e implantou o cargo de Defensor do Leitor – que aqui no Brasil achamos melhor cognominar com uma palavra mais simples e próxima da língua de Camões, ombudsman.

Poderia ficar por aqui, mas é importante destacar que El País aprovou um documento chamado Estatuto da Redação, com a missão de regulamentar as relações profissionais entre a redação, a direção do jornal e também a empresa editorial que o sustenta. Abdicou logo cedo de ser uma ilha editorial para ser fonte e caixa de ressonância de vários continentes ao firmar projetos de colaboração com jornais de prestígio em seus países, como Le Monde (França), La Reppublica (Itália), Süddeutsche Zeitung (Alemanha), The Daily Telegraph (Reino Unido), The International Herald Tribune e The New York Times (EUA).

Mas nem sempre a história de um jornal pode ser construída apenas pela adoção de atitudes e posições consideradas corretas em seu tempo. Alternar sol e chuva, calmaria e tempestade, concede a um jornal o direito de saborear isso que chamamos de fonte de autoridade moral. Com El País não foi diferente.

Pois bem, foi durante a tentativa de golpe de 23 de fevereiro de 1981, levado avante pelo tenente-coronel da Guarda Civil Antonio Tejero, aproveitando a instabilidade política e as incertezas que cercavam o país. Com os tanques do exército nas ruas de Valência e com o governo e todos os membros raptados no Congresso, antes mesmo que a TV espanhola conseguisse divulgar a mensagem do rei Juan Carlos condenando o golpe, El País chegou às ruas com uma edição especial com a manchete “El País com a Constituição”. E foi o primeiro jornal a marcar posição pela democracia, convocando a população a seguirem juntos. Tais compromissos com a democracia levaram El País a contribuir para a vitória espetacular do PSOE nas eleições de 1982, oferecendo completo apoio ao governo de Felipe González.

Desde então, o jornal vem conquistando admiradores (não apenas leitores ou assinantes) mundo afora. A forma como faz seu leitor entender que seus compromissos estatutários foram redigidos para serem levados a sério, e que estes não estão no balcão de negócios a conectar a área editorial com a comercial, tem sido clara, muito clara. El País é o jornal que com maior propriedade atualmente pode dizer que tem compromisso pétreo com o leitor, compromisso sagrado e sempre acima das lealdades circunstanciais aos governos de plantão, ao empresariado melhor aquinhoado nas Bolsas de Valores.

Leia a segunda parte AQUI

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Publicado em 06/04/2011 por em Uncategorized.

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