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Washington quer ditar os caminhos do Egito pós Mubarak: mudar sim, mas quase nada

Egito mais uma peça do tabuleiro controlado por Washington na região

Obama pressiona por mudança no Egito, mas não por um novo líder

Com receio de sucessor de Mubarak, EUA ficam em alerta com aliado que tem maior pilar da política externa americana na região

A decisão do presidente Barack Obama de, pelo menos por agora, não pedir a renúncia de Hosni Mubarak, foi impulsionada pela preocupação do governo americano de que com isso poderia perder toda a influência sobre o presidente do Egito, além do temor de um vácuo de poder no país, segundo oficiais do governo envolvidos no debate.

Ao relatar as deliberações de sábado, eles disseram que Obama quer conscientemente evitar qualquer percepção de que os Estados Unidos mais uma vez armaram em silêncio a expulsão de um grande líder do Oriente Médio.

Mas depois que o presidente e seus conselheiros se encontraram na tarde de sábado, na Sala de Situação, Obama, através de um documento de ata da sessão, divulgado pelo Conselho de Segurança Nacional, mais uma vez pediu que Mubarak abstenha-se de usar violência contra os manifestantes e apoie “medidas concretas” que avancem a reforma política no Egito. Ele não definiu, no entanto, quais devem ser esses passos ou se a Casa Branca acredita que eles podem acontecer com Mubarak no poder.

Segundo altos oficiais do governo, durante a reunião Obama alertou que qualquer esforço iniciado pelos Estados Unidos para facilitar a saída de Mubarak ou a entrada de um possível sucessor pode sair pela culatra. “Ele disse várias vezes que o resultado tem de ser decidido pelo povo egípcio, e os Estados Unidos não podem estar em posição de ditar os eventos”, disse um oficial sênior do governo, que como outros falou sob condição de anonimato.

Difícil
A contenção desse governo também é impulsionada pelo fato de que, para os Estados Unidos, lidar com um Egito sem Mubarak seria, na melhor das hipóteses, difícil e, na pior das hipóteses, francamente assustador. Por 30 anos, seu governo tem sido um pilar da política externa dos Estados Unidos em uma região volátil, principalmente por causa do tratado de paz entre Egito e Israel. As autoridades americanas temem que um novo governo – particularmente um que seja dominado pela Irmandade Muçulmana e outros grupos islâmicos – possa não honrar o tratado assinado em 1979 pelo antecessor de Mubarak, Anwar Sadat.

Sadat foi assassinado dois anos depois, abrindo o caminho para Mubarak. “Claramente o tempo de Mubarak se esgotou”, disse um dos conselheiros de Obama. “Mas se isso significa que ele permitirá que um processo político real se desenvolva, com muitas vozes, ou se irá sair do caminho, é algo que os egípcios precisam decidir. Nós não podemos votar”.
Esta não é a primeira vez que Washington tem que enfrentar a crise de como lidar com um levante contra um aliado ditador, linha dura e corruto. Alguns oficiais têm comparado o que se está acontecendo no Egito com os levantes de mais de três décadas atrás, que levaram à derrubada do Xá do Irã, e os protestos nas Filipinas, que derrubaram Ferdinand Marcos.
No Irã, Washington apostou na emergência de um governo com o qual poderia trabalhar e perdeu – um processo com o qual um membro do gabinete de Obama, o secretário de Defesa Robert M. Gates, esteve profundamente envolvido quando jovem assistente no governo Carter. Nas Filipinas, o resultado foi uma democracia bagunçada. No passado, Mubarak jogou o exemplo do Irã na cara de oficiais americanos – talvez como um aviso para não pressioná-lo demais. Em 2009, pouco antes de Mubarak chegar a Washington, a embaixatriz dos Estados Unidos no Cairo na época, Margaret Scobey, observou em um dossiê para o Departamento de Estado: “Temos ouvido ele lamentar os resultados de esforços anteriores dos Estados Unidos em incentivar reformas no mundo islâmico”.

“Onde quer que ele tenha visto esforços dos Estados Unidos, ele pode apontar para o caos e perda de estabilidade que vieram em seguida”, afirma o dossiê, um tesouro encontrado no website WikiLeaks. “Além do Iraque, ele também nos lembra que advertiu contra as eleições palestinas em 2006, que levaram o Hamas, ligadao ao Irã, à sua porta”.

Governo moderado

Oficiais do governo Obama gostariam de ver um governo moderado e secular emergir das cinzas da crise egípcia. Mas como Mubarak sufoca em muito o debate político e marginaliza qualquer oposição – não existe meio termo na política do Egito, nenhum partido secular confiável que cresceu na oposição ao governo de Mubarak. Em vez disso, existe o Exército, que sempre apoiou o governo de Mubarak, e na outra extremidade do espectro, o grupo islâmico Irmandade Muçulmana.

Isso significa que se eleições livres fossem realizadas hoje, os egípcios teriam de escolher entre dois extremos, nenhum dos quais é atraente para os Estados Unidos.

“Nós não devemos pressionar por eleições antecipadas”, disse Stephen J. Hadley, conselheiro de segurança nacional do presidente George W. Bush. “Devemos dar tempo ao povo egípcio para desenvolver partidos não-islâmicos. O objetivo é ganhar tempo para que a sociedade civil possa se desenvolver e, então, quando tiverem uma eleição eles poderão ter uma escolha verdadeira”.

Hadley disse que, dada a escolha, os egípcios poderiam muito bem optar por um governo híbrido que incluiria a Irmandade Muçulmana e a maioria secular, disposta a continuar a viver de acordo com o tratado de paz com Israel, de 1979.

Alguns oficiais claramente começaram a pensar nas muitas possibilidades que podem surgir caso Mubarak se afaste do palácio presidencial, incluindo um governo liderado por seu vice-presidente recém-instalado, Omar Suleiman, chefe de inteligência do país. As autoridades americanas dizem que Suleiman tem sido descrito como ainda mais oposto a amplas reformas que Mubarak. “Reposicionar apoiadores de longa data de Mubarak não é o tipo de ‘reforma concreta’ que o presidente quer”, disse um oficial sênior.

Outra possibilidade, segundo oficiais americanos, seria um governo de transição liderado por alguém de fora, talvez Mohamed El Baradei, o ex-diretor geral da Agência Internacional de Energia Atômica, que voltou ao Cairo há alguns dias.

ElBaradei, que não vive no Egito há muitos anos, tem pouca ligação com os manifestantes. Um crítico frequente da política dos Estados Unidos, ele poderia formar um governo interino, enquanto o país se prepara para uma eleição. Como disse um oficial americano: “Ele mostrou uma independência de nós que esmagaria qualquer argumento de que está lá por nossa causa”.

Obs.: grifos do blog, a hipocrisia dos “defensores da liberdade” em nome de suas aspirações globais

The New York Times

*Por David E. Sanger e Helene Cooper, com colaboração de Mark Landler
Ig

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Publicado em 31/01/2011 por em Uncategorized.

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